Marketing de restrição: marketing é ciência ou opinião?

Marketing é ciência ou opinião? Capa do artigo de Gabriel Preuss com a mandala de marketing de restrição

Marketing é ciência quando cada decisão nasce de hipótese, teste e documentação. Sem isso é opinião, e opinião não acumula aprendizado.

Eu passei dois anos e meio num mestrado de análise de dados e modelagem preditiva na UFPR antes de trabalhar com marketing, e a primeira coisa que me incomodou quando entrei numa operação de agência foi ver decisão de verba sendo tomada na base do “acho que esse criativo vai funcionar”. Não era falta de gente boa. Era falta de método. Este artigo é sobre a diferença entre os dois, e sobre o que muda na receita quando o marketing sai da opinião e vira ciência.

Qual a diferença entre opinião e ciência no marketing?

Opinião é decidir com base no que a pessoa acredita; ciência é decidir com base no que foi testado e registrado. A diferença prática está em três perguntas: a hipótese foi escrita antes do teste? A métrica de sucesso foi definida antes do resultado aparecer? O resultado ficou documentado num lugar que a próxima pessoa consegue ler? Se qualquer resposta for não, é opinião, mesmo que tenha dashboard bonito atrás.

Isso importa porque a opinião de gente experiente erra mais do que a gente gosta de admitir. Ronny Kohavi, que dirigiu a plataforma de experimentos da Microsoft, publicou na Harvard Business Review que, entre os testes bem desenhados rodados lá, só cerca de um terço melhorava a métrica que pretendia melhorar; outro terço não mudava nada e o último terço piorava. E eram ideias de times que conheciam o produto a fundo. Se um terço das apostas de especialista piora o resultado, a única forma de saber em qual terço você caiu é medir antes e depois.

O que eu vejo nos projetos da Raizhe é que a opinião costuma vencer por um motivo simples: ela é mais rápida. Escrever a hipótese, definir a métrica e esperar o teste terminar dá trabalho, e o cliente está ansioso por movimento. Só que movimento sem registro é o que produz a cena que eu descrevi no artigo sobre marketing de restrição: seis meses de campanha, troca de agência, e a empresa não sabe dizer o que aprendeu com o dinheiro que saiu.

O que é uma hipótese documentada?

Hipótese documentada é uma frase escrita antes do teste que diz o que vai ser mudado, qual métrica deve se mover, quanto ela deve se mover e por quê. Algo como “trocar o estímulo do primeiro segundo do vídeo por contraste vai subir o hook rate de X pra Y, porque a atenção está sendo perdida antes da mensagem”. O “porquê” é o que separa hipótese de palpite, porque é ele que vai ser confirmado ou derrubado.

Na Raizhe, o registro de uma hipótese tem cinco partes que o time preenche em ordem: a hipótese em si, a métrica antes do teste, a métrica alvo, o resultado observado e a decisão tomada a partir dele. Eu não vou fingir que sempre foi assim. Houve projetos, principalmente nos primeiros anos, em que o time otimizava campanha na intuição e registrava só o que dava certo, e o efeito disso apareceu meses depois: um aprendizado que já tinha sido comprado voltava como aposta nova, com verba nova, porque não estava escrito em lugar nenhum. As 400 horas de treinamento interno sobre receita que o time acumulou existem, em boa parte, pra corrigir esse hábito.

O caso que eu mais uso pra explicar isso aconteceu na nossa própria captação. A hipótese era que o criativo do feed perdia atenção no primeiro segundo, porque o hook rate estava baixo enquanto a retenção de quem passava desse ponto estava normal. Trocamos o estímulo inicial, rodamos o criativo novo contra o antigo com a métrica definida antes, e a conversão foi de 1,5% pra 7,8%, segundo os dados da nossa conta de anúncios. O custo por lead caiu quatro vezes e o CAC caiu 34%. Se eu tivesse trocado o criativo inteiro na intuição, talvez tivesse chegado ao mesmo número, mas não saberia por quê, e o próximo criativo começaria do zero.

Por que tanta agência não documenta?

Porque documentar expõe o que não funcionou, e o modelo de contrato por tarefa não recompensa isso. Quando a agência é paga por quantidade de posts, criativos e campanhas entregues, o incentivo é entregar mais, e um registro honesto de hipóteses mostraria que boa parte das entregas não moveu métrica nenhuma. O que eu vejo é menos má-fé e mais estrutura de incentivo: a agência entrega o que o contrato mede.

Tem um dado da Gartner que ajuda a dimensionar o problema. Numa pesquisa com 377 usuários de analytics de marketing, publicada em 2022, a análise de dados influenciava só 53% das decisões de marketing. A outra metade era tomada por outros critérios, e a mesma pesquisa mostrou que as organizações em que o dado influencia menos da metade das decisões são as que mais dizem não conseguir provar o valor do marketing. Em 2024, numa pesquisa com 395 CMOs, só 52% dos líderes de marketing conseguiam provar o valor da área e receber crédito por ele. Não é coincidência que os dois números fiquem perto de 50%: quem não decide com dado não consegue provar resultado, porque provar exige o mesmo registro que decidir.

Se você contrata marketing hoje, pode ser que a tua agência esteja nesse grupo sem saber. O teste é pedir o registro das últimas três hipóteses testadas com a tua verba, com a métrica antes e depois. Se a resposta vier em forma de relatório de entregas, você tem a tua resposta.

Como o aprendizado de um teste vira o ponto de partida do próximo?

Quando o resultado fica registrado com a decisão tomada, o próximo ciclo começa da conclusão do anterior, e a operação acumula conhecimento em vez de repetir aposta. Na prática, isso significa que a hipótese nova cita a anterior: “como o contraste no primeiro segundo subiu o hook rate, a próxima restrição está na retenção do meio do vídeo, e a hipótese é X”. O time nunca começa a caminhada do zero.

Isso muda a economia do marketing de um jeito que o contrato por tarefa não captura. Um teste que dá errado e fica registrado é um aprendizado comprado uma única vez. Um teste que dá errado sem registro é uma despesa que vai se repetir, geralmente com a próxima agência, que vai propor a mesma coisa com outro nome. Eu tenho 400 projetos na Raizhe pra afirmar isso: o custo de repetir aposta velha é maior do que o custo de qualquer teste novo.

E é aqui que entra a teoria das restrições, que o físico Eliyahu Goldratt publicou em The Goal, em 1984, e que está no centro da mandala de marketing de restrição. Ela diz qual etapa do funil mexer primeiro, porque é a que está mais abaixo do benchmark. Os benchmarks que eu uso como ponto de partida, tirados dos dados dos projetos da Raizhe, são estes: de lead pra lead qualificado, entre 40% e 60%; de lead qualificado pra oportunidade, entre 15% e 25%; no-show de reunião no máximo 20%; e de reunião realizada pra venda, entre 10% e 20%. A restrição diz onde testar; o método científico diz como testar sem virar aposta. Quando o resultado de um ciclo é registrado, a próxima restrição já aparece medida, e o time sabe onde a hipótese seguinte mora.

O que é método científico aplicado ao marketing?

É a frente de método científico dentro da área Ciência da mandala, com três decisões: investigação, estatística e documentação. Investigação é ir atrás da causa em vez de aceitar o sintoma, com dado e com conversa com o cliente. Estatística é separar o que é sinal do que é ruído, pra não comemorar variação de dois pontos que o acaso explica. Documentação é o registro que faz o ciclo seguinte começar do anterior.

A investigação é o que mais falta, na minha experiência. O sintoma chega como “o custo por lead subiu” e a reação padrão é mexer na campanha. A investigação pergunta se o custo subiu porque a segmentação saturou, porque o criativo cansou, porque a página mudou ou porque o leilão ficou mais caro pra todo o setor, e cada resposta leva a uma hipótese diferente. Eu já vi verba ser cortada por causa de um CPL alto que era, na verdade, um lead mais qualificado e mais caro, que convertia em reunião numa taxa que pagava a diferença com folga. Sem investigar, a empresa otimizou o número errado.

A estatística é a parte que assusta e não deveria. Ela não exige um doutor na sala; exige que a decisão espere volume suficiente e que o resultado venha com algum intervalo de confiança, mesmo que aproximado. Daniel Kahneman descreveu em Rápido e Devagar, de 2011, como o sistema 1 do cérebro enxerga padrão em qualquer sequência curta de eventos, e é exatamente isso que faz um gestor trocar criativo depois de dois dias ruins. O dado com estatística mínima é a defesa contra o próprio cérebro.

O que a estatística tem a ver com isso?

Estatística é o que transforma um monte de números em conclusão que se sustenta. Ela identifica padrões numericamente válidos num conjunto de dados e diz, com um grau de confiança, se o que você viu é efeito ou coincidência. Sem ela, o marketing lê o resultado da semana como verdade e monta estratégia em cima de ruído.

Eu escrevi sobre isso num post depois de analisar séries temporais de seis meses de clientes de consultoria da Raizhe, cruzando dados de campanhas do Google Ads com estatística bayesiana. A análise bayesiana parte do teorema de Bayes, que calcula a probabilidade de uma hipótese dado o que foi observado, e permite ir além da correlação, estimando impacto causal com regressões e séries temporais. Na prática, a gente investigou coisas como o impacto do tipo de correspondência de palavra-chave na conversão, quanto do orçamento ia pra termos de pesquisa que nunca convertiam, e o que o índice de qualidade do anúncio dizia sobre o CPA. Aquilo virou base de estratégia e de otimização pros clientes, e a diferença entre esse trabalho e uma otimização de intuição é que ele gerou hipóteses com número, que o time pôde testar em vez de discutir.

Nove milhões de impressões passaram por essas contas antes de eu conseguir fazer essa leitura com segurança, e é isso que eu quero dizer com “antes disso, era só opinião”. O dado sempre esteve lá. O que faltava era o método pra ler.

Se a tua empresa investe em marketing e você não consegue listar as hipóteses testadas com esse dinheiro, talvez o problema não seja a agência, o canal ou o criativo. Talvez seja que o marketing ainda está sendo feito como opinião, e opinião não acumula. A mudança começa com uma frase escrita antes do próximo teste.

Quer ver a metodologia aplicada ao teu funil?

Numa conversa de diagnóstico com o meu time na Raizhe, a gente mede o teu funil, aponta a restrição e te mostra o que mexer primeiro. Quem participa recebe o Chuva de Vendas, o treinamento interno de vendas do time, sem investir um real.

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Perguntas frequentes

Marketing científico é a mesma coisa que marketing orientado a dados?

Quase. Dado é a matéria-prima, e muita empresa tem dashboard sem ter ciência nenhuma. O que faz a diferença é o ciclo: hipótese escrita antes, métrica definida antes, teste rodado, resultado registrado e decisão tomada com base nele. Sem a hipótese e sem o registro, o dado só decora relatório.

Quanto tempo leva pra montar esse processo dentro de uma empresa?

Menos do que parece. O primeiro ciclo completo, da hipótese ao registro, cabe em duas a quatro semanas, porque a maior parte do trabalho é disciplina, e disciplina se instala por decisão. O que leva tempo é acumular ciclos suficientes pra que o histórico comece a decidir por você.

E se o teste der errado? A empresa perde dinheiro?

Um teste que dá errado e fica registrado é um aprendizado comprado uma vez só. O que custa caro é o teste que dá errado sem registro, porque a empresa repete a mesma aposta seis meses depois com outra agência. Na Raizhe, a regra é que resultado negativo documentado vale tanto quanto positivo.

Uma empresa pequena consegue fazer isso sem estatístico?

Consegue. O básico é hipótese escrita, uma métrica só, um período definido e o registro do resultado. Estatística entra quando o volume permite separar sinal de ruído com mais segurança, e aí vale ter alguém que saiba ler um intervalo de confiança. Sem esse volume, a disciplina do registro já muda a conversa comercial.

Como isso se encaixa no marketing de restrição?

É a área Ciência da mandala, com a frente de método científico e as três decisões dela: investigação, estatística e documentação. A teoria das restrições diz qual etapa mexer; o método científico diz como mexer sem virar aposta. Um sem o outro é o que eu chamo de opinião com verba.

Por Gabriel Preuss, criador de marketing de restrição e CEO da Raizhe.

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